Texto: Edson Souza
Belisário na Fazenda Engenho d'Água em Ilhabela.
Em
20 de setembro de 1895, nascia na cidade de São Paulo o renomado artista
plástico Waldemar Belisário, irmão de criação de Tarsila do Amaral
(esposa de Oswald de Andrade).
Aos 34 anos, Belisário comentou com o seu amigo Martins Fontes: “Estou meio
aborrecido aqui em São Paulo, quero me aventurar para ir pintar búfalos e
índios no Marajó”… Em resposta, aconselhou-o amigo: — Não faça isso. Vá
para Villa Bella (Ilhabela). Você vai gostar muito, lá sim vale
a pena pintar.
Fontes explicou a Belisário tudo o que ele precisava saber sobre a Ilha de São
Sebastião, localizada no litoral norte da grande São Paulo. Ciente de que a viagem
seria sofrida. Belisário não poupou esforços, preparou toda a bagagem e partiu
de São Paulo rumo ao porto da cidade de Santos, onde embarcou no navio
“Aspirante Nascimento”, que o levaria o mais próximo possível da tão retratada
ilha.
Horas de viagem e as âncoras do ‘Aspirante Nascimento’ tocam ao fundo do canal
de Toque-Toque, este que separa (ou une?), Ilhabela e o continente. A
precariedade naquele tempo era notória. Uma canoa de voga era esperada pelo
navio parado ao largo do canal, para que os passageiros pudessem completar a
viagem. Logo, esta deixaria o renomado artista no pontão de madeira da antiga
vila… Belisário seguiu pelas ruas de terra do lugarejo, até chegar ao ‘Hotel
Bela Vista’, propriedade do italiano Francisco Fazzini.
O artista pincelou a ilha no final do século XX, criando quadros que falavam da
simplicidade de Ilhabela e da quietude de seu povoado. Traduzindo culturalmente
as cores vivas da natureza; a fé e a devoção a São Benedito. Pincelou das
canoas de voga aos carros de boi… Nada o incomodava, nem mesmo a agitação da
grande São Paulo. Tudo havia ficado para trás.
Encantado com as riquezas e a exuberância da ilha, Belisário resolveu
ficar na cidade, comprando uma casa de pau a pique na região da Praia dos
Castelhanos, cuja face é voltada para o mar aberto. Nesta tradicional
comunidade caiçara, administrou seu sítio, onde cultivava a plantação de
bananas e a criação de animais. O isolamento inspirava o artista que passou a
confeccionar seus quadros pintados com a alma e muita paixão.
Um deles, “Ensaio da Congada” foi responsável pela vinda de Mario de Andrade e
Heitor Villa-Lobos ao arquipélago de Ilhabela. Os poetas escritores
admiraram a existência da congada em cores vivas na tela e não pensaram duas
vezes em aceitar o convite do renomado artista para assistirem a uma
apresentação da congada na ilha.

Waldemar Belisário e Celina Guimarães Pellizzari
Acervo: Waldemar Belisário
Em
1934, uma canoa de voga trouxe para as terras dos Castelhanos uma jovem
paulista, cujo nome era Celina Guimarães Pellizzari. Recém-formada pelo
instituto Mackenzie de São Paulo, a jovem cativou o coração do artista Waldemar
Belisário. Logo o artista e a professora começaram a namorar. Celina lecionou
para as crianças da comunidade dos Castelhanos.
Foi em 24 de dezembro de 1937, véspera de natal, que Celina Guimarães Pellizzari, autora
do hino oficial de Ilhabela, casou-se com o renomado artista. A comunhão se deu
no município de Villa Bella (Ilhabela), no cartório de paz “Tomaz Bento
Barbosa”, onde fora registrado a união civil do casal.
Já em
1942, devido à malária, Waldemar e Celina deixaram o município de Ilhabela.
Desta vez, viajando com veículo próprio, que fora comprado com o dinheiro da
venda do sítio nos Castelhanos. Passaram a viver no Cambuci e na cidade Ademar
em São Paulo. Nesse tempo, ele passou a lecionar desenho nas escolas paulistas,
confeccionava quadros, frequentando espaços artísticos e exposições em galerias
de arte.
Em
1961, o casal adquire uma casa no bairro do Perequê, retornando definitivamente
para a cidade de Ilhabela. Waldemar Belisário faleceu no ano de 1983, com 88
anos. Está sepultado no Cemitério Municipal de Ilhabela.