Translate

Mostrando postagens com marcador congada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador congada. Mostrar todas as postagens

16/07/16

Entrevista com Narcizo de Ilhabela

*Conteúdo autorizado pelo Museu da Pessoa





Solidonio Narcizo dos Reis Neto conta de sua grande família, do lado do pai, são 33 irmãos. Narcizo narra também como foi à infância em Ilhabela, quais eram suas brincadeiras e passatempos favoritos. Por conta de uma promessa de sua mãe, Narcizo participa da congada há 55 anos e ele conta como é a festa, quais são as tradições e como é feita a concertada, uma bebida típica, bebida apenas depois da subida do mastro em homenagem ao São Benedito.

Bebida essa que é passada de geração em geração, e que Narcizo vai ensinar seu filho na próxima edição da festa. Além dessa festa, Narcizo conta como é a Folia de Reis e o samba — como tocador de surdo. Solidonio Narcizo narra também seus trabalhos no mar e em terra, sendo esse último como coveiro da cidade.

Meu nome é Solidonio Narcizo dos Reis Neto, nascido 24 de novembro de 1956, na cidade de Ilhabela (SP). A minha casa de infância era nesse setor aqui, era feita de pau a pique e o piso era de madeira e o telhado eram aquelas telhas antigas, que dizem que faziam na coxa, né, a telha. Era…

O primeiro morador aqui nesse setor, aqui nesse lugar, aqui fomos nós. O primeiro morador que teve aqui foi o meu pai que naquela época era funcionário público da prefeitura. O brinquedo da gente era subir no morro aí para escorregar no sapê, era a brincadeira que a gente tinha aqui e, à noite, brincar, né, de pique e durante o dia, a gente estudava, das oito ao meio-dia no grupo escolar.

O resto, antigamente, a luz aqui às dez horas, apagava e a gente já tava dormindo, porque naquela época, não tinha televisão, não tinha nada. Fui crescendo aqui e aqui fiquei, nunca sai da Ilha, já viajei muito, mas pra morar fora daqui…

Vou fazer 60 anos agora em novembro, nunca sai daqui. Casei aqui, tive três filhos homens e uma menina que faleceu. São todos casados e eu me separei com 20 anos de casado, separei e vivo hoje com minha senhora que mora aqui comigo, ela é da Bahia, lá de Vitoria da Conquista e estamos vivendo até hoje. Eu trabalho na prefeitura, comecei como gari, passei para o cemitério.

Restante, eu toco num grupo de samba que tem aqui na Ilha, né, comecei a tocar no Recanto do Samba junto com os meus irmãos e lá, eu aprendi e, hoje em dia, eu participo de um grupo, Raízes da Ilha que é aqui da Ilha. E a gente faz samba por aí, tudo. E fim de ano, a gente faz a Folia de Reis, que é tradicional aqui da Ilha. A gente começa em novembro, vai até dia seis de janeiro, cantando nas casas, à noite toda, começa a meia-noite, vai até às seis horas da manhã e participo da Congada, que foi uma promessa que a minha mãe fez.

Eu tive uma doença quando eu era pequeno e minha mãe fez uma promessa pra São Benedito e se eu ficasse bom, eu participava da Congada da Ilhabela, que é a Festa de São Benedito, todo mês de maio, segundo domingo de maio. Eu danço na Congada desde os cinco anos, 55 anos na Congada. 

Tem aqui a tal da levantação do mastro de São Benedito que cai numa sexta-feira e, na época do meu pai, ele fazia uma bebida chamada concertada, uma bebida típica e quando o meu pai faleceu, minha mãe fazia e eu sempre presente, assistindo, ia aprendendo, inclusive, até hoje, eu ainda faço a concertada da Festa de São Benedito, a levantação do mastro.

Antigamente, a gente fazia era dois, três garrafões de cinco litros, hoje em dia, eu faço a base de 120 litros e ainda não dá, é muita gente, é uma bebida típica, gostosa, né? E sobre a Barraca [do Samba], a barraca tem uns 70 anos, 70 e poucos anos. Antigamente, era um quadrado de madeira, madeirite, coberta com brasilit, tinha um balcãozinho, uma geladeirazinha, na época, só vendia refrigerante e cachaça, né, e vendia farinha-da-terra feita aqui na Ilha, vendia peixe seco, fumo, na época, meu pai vendia fumo de rolo.

Uma das primeiras barracas na beira da praia foi essa aqui, que chama hoje Recanto do Samba. Teve três donos, o primeiro dono se chama Francisco dos Reis, depois passou para um senhor que tinha um restaurante aqui, chama João Parateano e o meu pai ganhou essa barraca num jogo de bocha. Eles fizeram uma aposta e antigamente, quando era apostado, tinha que cumprir, né? Meu pai ganhou essa barraca num jogo de bocha e até hoje tá com a gente.

A gente que tá ficando velho tem que passar para os mais novos pra continuar, né, nunca acabar, porque isso aí é uma tradição, coisa aqui da Ilha, que vem dos antigos, então, a gente não pode deixar acabar, por isso que a gente promete passar para um filho. Uma responsabilidade que ele vai ter e não deixar de fazer, que eu não vou deixar de fazer, só a hora que eu não tiver mais aqui, aí enquanto eu for vivo, vou continuar fazendo e chamando ele para ele vir aprendendo e continuar o que a gente aprendeu com os mais velhos, continuar até ele depois passar para outro, para o filho dele ou irmão.

É uma tradição, né? Que veio dos antigos, meu pai aprendeu a fazer, foi passando de pai pra mãe e agora, ultimamente, tá comigo. Dá um pouquinho de trabalho, tem que ter os temperos certinho, a dose certa, né, a gente faz numa panela, um panelão, põe todos os preparos ali, ferve, depois de fervida, deixa ela esfriar, aí põe a cachaça, aí ela fica três dias para os temperos dela pegarem o gosto, depois de três dias, ela é coada, a gente passa nos garrafões e no dia da festa, a gente serve.

Tem que saber fazer, que se der alguma coisa errada, não dá errado, porque a preparação que vai: cravo, canela, açúcar queimado, né, aquela calda, folha de laranja-cravo e folha de laranja-da-china. Aí ferve tudo isso aqui, o cravo, a gente bate, deixa ele em pozinho, a canela também, mistura tudo, põe no fogo, aferventa, deixa de molho três dias, depois de três dias é coada e um mês depois, não dá um mês, 20, 30 dias, serve no dia da levantação do mastro.

Agora, o meu filho mais novo que participa da Congada mandou passar a receita, ensinar, o ano que vem agora, quando eu for fazer, vou chamar ele pra ele aprender, eu já tô com 60 anos, eu já tô meio… Aí, passo a minha parte pra ele. Ele vai fazendo pra não acabar, né? Porque se uma hora uma pessoa que sabe fazer não ensina ninguém, aí acaba. Isso é uma tradição, né? É feita há um bocado de anos.

Postagem Original: Clique Aqui 



14/07/16

Entrevista com Adriano Leite de Ilhabela

*Conteúdo autorizado pelo Museu da Pessoa





Adriano Leite da Silva, mais novo de 12 irmãos, conta como foi sua infância de filho de pescador e de artesã de trás da Ilha. Apaixonado por história e pelo folclore de sua cidade Natal, Adriano conta como desde sua tenra infância essas histórias fizeram parte de seu desenvolvimento como ser humano e esse traço ele traz até os dias de hoje, em seu trabalho com crianças e com as escolas de Ilhabela.

Nesse depoimento, há histórias da sua ascendência familiar desde o período colonial, há contos e lendas da cidade, além de descrição de danças e festas populares da Ilha. Devoto de São Benedito, Adriano conta como são as festividades desse santo e como é preparada a concertada, bebida tradicional, servida apenas nessa festa.

Em seu depoimento, Adriano mescla as lendas e histórias de sua cidade, com o seu desenvolvimento pessoal e humano, numa narrativa apaixonada e instigante, oferecendo um mergulho nesse universo não tão conhecido aos turistas e não caiçaras da Ilha.

Adriano Leite da Silva, eu nasci na cidade de Ilhabela. Trinta de janeiro de 1968. A família da minha mãe, na verdade, eles eram todos de Ubatuba, inclusive lá em Ubatuba, tem a Praia dos Tenórios. Por volta de 1730, eles tiveram que vir pra cá assumir a fazenda da Praia da Fome, que era uma fazenda de engorda de negros, todos os escravos que vinham para Ilha, iam diretamente para baia de Castelhanos, né, lá eles eram vendidos.

Em Castelhanos tinham três fazendas super importantes de escravos nessa época, a Fazenda do Vicenzo, a Fazenda do Ribeirão e a Fazenda do Engenho Velho e lá, os escravos eram vendidos, os senhores de engenho da ilha iam até à Praia de Castelhanos, no Ribeirão, comprar e os negros que vinham muito velhos ou doentes eram deportados de canoa a remo para Praia da Fome, porque lá era a fazenda de subsistência, onde eles iam se recuperar pra poder voltar para Castelhanos e serem vendidos.

Então, nessa época, a família da minha mãe veio assumir, né, o meu bisavô, meu tataravô e aí, se formou a família da minha mãe na Praia da Fome. E a família do meu pai, a gente não sabe muito bem, mas são portugueses, né, a família do meu pai e gerou o Saco do Sombrio desde os primórdios, a família do meu pai.

Meu pai era pescador, ele era dono de dois barcos, inclusive, ele tinha um barco que se chamava Nossa Senhora do Rosário, que era super bem conhecido na ilha. Ele pescava, tinha cerco junto com a família dele, com todos os irmãos, porque era uma família grande, a família do meu pai e o meu avô tinha um cerco, onde todos os irmãos trabalhavam, né?.

O cerco, ele chegou aqui na Ilha em 1920 com a migração dos japoneses, porque é de origem japonesa o cerco e ficou sendo uma origem tradicional da Ilha, o cerco, né? Porque a gente usou muito, o cerco foi muito importante na área econômica da ilha, inclusive, a pescaria artesanal, na época. E a minha mãe era do lar, a minha mãe trabalhava na roça.

[O mais novo de 12 filhos] A gente fazia tudo junto, né, a gente brincava junto. Eu era menor, então as minhas irmãs tomavam muito conta de mim, onde elas iam, eu ia muito junto com elas, eu ficava mais junto com as minhas irmãs, na verdade, os meus irmãos era um pouco maiores do que eu, então nessa época, já saiam pro mar pra ajudar o meu pai na pesca e tal e eu ficava, como eu era menor, mais dentro de casa, ia pra roça com a minha mãe e com as minhas irmãs.

A gente brincava muito, a gente ia muito pro mar, a gente andava de canoa, a gente brincava de taco, de bolinha de gude, a gente empinava pipa, a gente colocava as fatias do coco por baixo e descia os morros brincando e ia parar no caminho, né? Era muito divertido, era muito gostoso aquela época, assim, a gente era muito livre, porque o lugar que a gente morava atrás da Ilha não tinha nada, né, não tinha carro, não tinha… Era só a gente mesmo, o mar, o céu e a mata.

Eu fui fazer faculdade, né? Sai um pouco da Ilha, fui conhecer outras situações com um pouco de medo, porque eu sempre vivi aqui, aí eu tive que sair da Ilha. Foi um pouco difícil pra mim, eu sentia muitas saudades daqui, muitas saudades, mas eu sai, estudei, voltei. Quando eu voltei para a Ilha, eu praticamente já fui direto para trás da Ilha, porque eu fui lecionar nas comunidades tradicionais e eu fiquei, praticamente, uns 20 anos lecionando atrás da Ilha.

Eu passei por todas as comunidades tradicionais, eu comecei trabalhando no Bonete e lá no Bonete… Todo esse trabalho que eu fiz atrás da Ilha, também, foi muito lindo, porque eu também adquiri muito conhecimento da história da cidade com essas pessoas mais antigas, que viviam lá. Então, a história do Bonete, que Bonete na verdade é Bonéte, é uma palavra espanhola que significa cone, chapéu de aniversário e esse nome é dado lá no Bonete porque o Bonete foi descoberto por espanhóis, então, o morro do Bonete é um cone, parece um chapéu de aniversário, então imagino eu que quando eles estivessem chegando lá, eles viram e falaram: “Bonete”, viram o morro e aí ficou Bonete.

A gente chama de Bonete hoje, mas o significado é esse e fui pra Serraria, fui para Ilha de Búzios, passei por todas as comunidades tradicionais, dando aula, lecionando para os filhos, netos de pescadores.

Gosto muito de viajar, já viajei para vários lugares, já tive oportunidade de conhecer alguns lugares, até alguns lugares no exterior, mas não me vejo fora da Ilha. Eu acho que a Ilha cresceu muito, mas ela ainda é aquela Ilha nossa, entendeu? Eu acho que a Ilha ainda tem essa energia pitoresca, essa energia acolhedora, essa energia da história, da antiguidade. Eu tenho orgulho de falar que eu sou caiçara e que eu nasci na Ilhabela e que eu sou da Ilhabela e que a minha Ilhabela é linda e vai continuar sendo linda pra sempre.

Ser caiçara é ser gente boa, é andar de pé no chão, é entrar no mar, é pescar, é comer peixe seco, é comer farinha-da-terra, os nossos pratos típicos, né, o pirão de banana verde, é o azul-marinho, é ser feliz, é essa união que a gente sempre teve de caiçara, ser caiçara é ser acolhedor, receber bem as pessoas dentro de casa, é fazer uma boa festa, é tomar uma boa consertada na festa de São Benedito (risos), é ser livre ser caiçara. É isso que eu sinto de ser caiçara.

[O que gosta de fazer] De ir para atrás da Ilha, de ficar lá na minha casa na Praia da Fome, de ascender meu fogo de lenha, de fazer o meu fogo tacuruba no quintal, de ir plantar mandioca, de ir para a roça, de ir para o mar pescar, de entrar na cachoeira, de ficar atrás da Ilha. Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é de ir para lá, de assar os meus peixinhos nos moquém, sabe, de defumar, de fazer as coisas caiçaras e de pintar, de fazer os meus artesanatos, de fazer as coisas que eu gosto de fazer dentro da minha casa, de estar lá no meio dos caiçaras, no meio do meu povo.

É uma das coisas que eu mais amo fazer agora. Inclusive, eu penso em me aposentar e ir morar atrás da Ilha, de terminar os meus dias lá. [De artesanato], eu faço trancas de palha de banana, que foi uma história que foi deixada pela minha avó, né, faço réplicas de casinhas de pau a pique, faço algum tipo de cestaria com bambu fininho...

Sou o filho de uma roceira, de uma mulher que trabalhou a vida toda na roça e de um homem que trabalhou a vida toda no mar, então eu sempre guardei essa importância, eu acho lindo isso, né? Tudo muito simples o que eu vivi, mas com muito amor, com muita esperança e com muita devoção!

Postagem Original: Clique Aqui



12/07/16

Entrevista com Izanil de Ilhabela

*Conteúdo autorizado pelo Museu da Pessoa





Maria da Silva Pinto de Albuquerque é a mais nova de vinte e seis filhos. Maria conta a história de seu nome, por ser conhecida na cidade como Izanil, nome que não consta no seu registro de identidade. Izanil conta também como era a Ilhabela de sua infância e juventude, com as cantigas de roda e as “peraltices” das festas da cidade.

Dona Izanil seguiu os passos da mãe – que por sua vez seguiu os passos de sua mãe – como parteira, sendo a responsável pelo nascimento de muitos bebês na cidade. Izanil conta também como aprendeu o ofício de enfermeira ao longo do tempo. Para encerrar seu depoimento, Izanil narra os procedimentos para a elaboração do peixe-azul com banana verde, comida típica da região.

Meu nome é Maria da Silva Pinto de Albuquerque, nascida aqui em Ilhabela (SP), dia oito de janeiro de 1928. Minha avó, Benedita Esperança da Silva, veio escrava, né? Quer dizer que já veio gorda de lá, minha mãe nasceu aqui. O meu pai conheceu a mamãe já mocinha aqui no Perequê. E aí, namoraram, casaram, ela casou nova e teve 26 filhos. Eu sou a última, por isso que eu não sei contar muitas coisas, né, porque eu fui a última filha.

Meu pai era carpinteiro, ele trabalhava muito, às vezes, levava mais de uma semana fora de casa. Aqui mesmo na ilha, mas em outros bairros, né? E nós ficamos aos cuidados da minha mãe. Minha mãe, ela trabalhava na roça, né? A profissão dela era parteira. Todo mundo vinha chamar ela e ela fez muito parto. Vinham chamar ela à noite, ela ia, já levava uma trouxinha com roupa, sabe o que é trouxinha, que eles falam? Amarravam assim e vinham chamar…

A mãe dela sabia, a mãe era parteira. A mãe dela era escrava e ela fazia parto, fazia tudo, parto mesmo das próprias mulheres, filhas dos colonos, lá… Ela fazia parto e ela aprendeu com a avó… a mamãe aprendeu com ela.

Minha casa [de infância] eu lembro que ela ainda é viva (risos). Aquela esquina ali, que tem aquele restaurante Max, ali eu nasci, naquela casa. Era uma beleza, tinha quatro quartos, casa grande e minha mãe, ela hospedava o pessoal tudo detrás da Ilha que chegava: “Madrinha Eva…”, os pais [os mais velhos a] chamavam de sinhá Eva. Então ali, o pessoal à noite, ia dormir, ela mandava fazer esteiras, forrava a sala, tinha um quarto grande, tudo de esteiras. Ela nunca falou não, nunca.

[Na hora das refeições] Ela punha uma esteira no chão, então fazia aquela roda, todo mundo sentava e, naquele tempo, era cuia, você sabe o que é cuia? Cada um já tinha a sua, não tinha prato, sabe? Era aquela cuia e tinha uma colherzinha, uma colherzinha de pau, também, tudo já tava ali. Então, ela já punha a comida pra todos, quando chegava no último: “Mãe, eu quero mais”, lá ela voltava por de volta… Tudo ali naquela cuiazinha pra gente comer.

[Sobre ser parteira]Não sei nem falar. Olha, eu fiz parto até perto lá das pancadas do mar, tinha um casebrezinho lá embaixo, era dia seis de setembro, aí o pai veio buscar, pediu ao médico uma ajuda, porque não podia levar a mulher de onde estava para a estrada. Aí, ele [o médico] disse assim: “Izanil, você vai” “Sim, doutor”, mas eu já tinha feito muito parto. “Qualquer coisa você traz a paciente. A ambulância vai levar você, vai ficar lá de plantão e qualquer coisa, vem me avisar”, aí eu fui.

Aí eu fiz o parto, porque não dava para subir com a mulher, porque era morro e era tudo apertadinho assim, ela podia até ganhar neném naquela subida. Aí, eu fiz o parto direitinho, aí o motorista: “Izanil, é melhor vai chamar o médico…”, porque ele ficou esperando, “Vai lá buscar o médico, já nasceu, mas é bom que ele venha”, aí ele foi. Até pra ele descer ficou com medo: “Eu descer nesse barranco?”, porque o mar quando batia na pedra… Batia na casa.

Eu fiz muito parto. Muitas vezes, eu ia daqui pra casa, parava uma pessoa no caminho: “Aqui não tem ninguém que faça um parto, que tá nascendo uma criança”, aí eu dali já ia, porque nesses caminhos, fazia um monte de parto. É uma grande alegria, sabe, porque a gente tá vendo nascer uma criança, meu Deus, como é que pode passar num lugarzinho tão estreitinho? Eu fiz muito parto. 

Outro dia foi no ônibus, todo mundo saltou e eu sempre salto por último, eu fui saltar e um rapaz me parou: “Escuta, você desce ou sobe ou fica parado”, ele falou assim: “Não, estou esperando a senhora mesmo. Quero segurar na sua mão” “Por enquanto não tô pedindo socorro”, comecei a brincar com ele “Não, mas eu quero pegar na sua mão”, daí, desci, sentei lá na vila, aí ela falou assim: “Sabe por que eu fiz isso?” “Não” “Porque eu não conhecia a senhora, minha mãe falou quem era a senhora, me explicou e [falou] para mim ajudar onde a senhora tivesse...”, eu nem lembrava, [ele era] moço já, né?

“Minha mãe falou, então tô segurando na sua mão. Sabe por quê?” “Por quê?” “A senhora não lembra de mim, mas eu vou dizer. Quando a senhora chegou, o médico não tava, ele não tinha chegado ainda e a senhora… Quando o médico chegou, eu já tinha nascido, a senhora que pegou. E outra coisa, tenho isso aqui doído [apontando para o bumbum]”, eu: “Por quê? Caiu?” “Não, dos tapas que a senhora me deu quando eu nasci”, eu ri com ele!


Postagem Original: Clique Aqui